O primeiro filme baseado na saga Percy Jackson e os Olimpianos não foi bem recebido nem pelos fãs e nem pela crítica. Com um orçamento de US$95 milhões, o filme arrecadou internacionalmente o valor de US$226,4 milhões. Com uma margem de lucro relativamente boa, a FOX decidiu produzir o segundo filme da franquia que seria uma adaptação do livro Percy Jackson e o Mar de Monstros, escrito por Rick Riordan e lançado em 2006.
Com mais de três anos de espera desde o primeiro filme da sequência, Mar de Monstros estreou nos Estados Unidos dia 7 de Agosto desse ano e em sua pré-estreia arrecadou US$835 mil. No Brasil o filme teve estreia oficial no dia 16 de Agosto, mas algumas cidades tiveram pré-estreia no último final de semana, nos dias 9, 10 e 11.
Seguindo a mesma vertente de Harry Potter, a saga do filho de Poseidon tem seu foco na mitologia grega e a apresenta em uma visão moderna e fácil de ser apreendida pelo espectador. Além do trio principal que é composto por Percy (Logan Lerman), Annabeth (Alexandra Daddario) e Grover (Brandon T. Jackson), o novo filme conta ainda com Tyson (Douglas Smith) e Clarisse (Leven Rambin). A direção fica por conta de Thor Freudenthal.
O filme é voltado pra o público infanto-juvenil e é bem provável que esse seja o motivo de tudo ser tão digerido e entregue na mão do espectador. Praticamente não há algo pra se questionar durante o percurso da trama, pois uma cena já lhe dá a resposta de algum questionamento (se é que há algum).
A cronologia dos fatos se torna confusa em alguns momentos e quem não conhece a história pode ficar perdido. As coisas acontecem rápido demais, parecendo não haver desenvolvimento da trama, mas sim uma colagem de cenas gravadas para um mesmo tema.
O filme fica numa superficialidade que prejudica a própria obra, pois não se aprofunda em praticamente nenhuma temática derivada do tema principal. Grover e Percy não parecem tão amigos; Luke e Annabeth não parecem ter sido companheiros quando crianças; entre outras relações que poderiam ter sido exploradas.
A atração do filme fica realmente por conta dos efeitos especiais que são em sua maioria muito bons. Caríbdis, por exemplo, pareceu extremamente real. Polifemo, o hipocampo (peixe-pônei) e Manticore, um dos monstros que ajudam Luke, também convenceram. Já o “touro mecânico” que invade o Acampamento Meio-sangue deixou a desejar, assim como Cronos e o único olho de Tyson.
Quanto à trilha sonora, não há o que reclamar. As músicas de fundo, os foleys, as paisagens sonoras e a música-tema de Thalia (que é tocada durante os créditos) ficaram todas adequadas para o filme e cumpriram bem o seu trabalho de guiar as emoções do espectador e criar sensações nos mesmos.
No quesito atuação ficou realmente tudo razoável. De maneira geral os atores foram medianos e dos que mais se esperava algo, foram os que menos deram resultados. Logan deixou muito a desejar, e Alexandra também não foi muito bem. Brandon realizou bem seu papel, assim como Douglas. Destaque vai para Leven Rambin, que mesmo não tendo o perfil físico de Clarisse exerceu bem o papel e convenceu como filha de Ares, apesar de em alguns momentos não ter atingido o potencial cênico necessário; e Stanley Tucci, que interpretou de maneira excelente o Sr. D, dando pitadas de humor para trama e roubando a atenção dos demais atores para si.
No decorrer do filme houve alguns erros de continuidade, como na cena do táxi das irmãs cinzentas, em que Percy coloca o cinto de segurança e quando o veículo se divide em dois, o cinto desaparece. Outro momento em que o erro ocorre, é após a fuga do iate (e covil) de Luke, de onde os heróis saem carregando uma mochila e quando estão no bote salva-vidas já estão sem ela.
A animação que conta a história de Cronos foi uma das partes mais bonitas e bem feitas do filme, exceto pelo erro de dizer que o titã não havia engolido Poseidon e Hades, e estes ajudaram Zeus a destruir o pai. Mas tirando isso esta cena foi realmente muito boa.
Fazendo um balanço final, Mar de Monstros ficou bem melhor que o primeiro filme da sequência. Os problemas percebidos na obra não são tão grandes como os do precedente, mas, caso tenha continuação, não podem ser repetidos. A história de Percy Jackson é ótima e cativante (para confirmar é só observar os ótimos números de vendas que os livros tem atingido e a quantidade de fãs existente) e tem um grande potencial para ser mais uma saga de sucesso nos cinemas, como tantas que temos visto ultimamente, porém é preciso esforço e desempenho da equipe técnica, principalmente roteiro e direção.
Pra terminar, vejamos quais foram os pontos negativos e os pontos positivos de Percy Jackson e o Mar de Monstros:
Pontos negativos:
• A adaptação do livro para as telonas foi melhor que a do filme anterior, porém deixou a desejar e pode ser considerada razoável.
• Terem trocado Pierce Brosnan, no papel de Quíron, por Anthony Head.
• Montagem é típica de filmes de aventura e ação: cortes rápidos, com pouca duração, o que dá uma impressão de agilidade ao filme.
Pontos positivos:
• A fotografia é um dos pontos mais positivos do filme. As cores são bem vivas e são agradáveis de ver, pois não agridem por serem chamativas e não deixam a desejar por serem “fracas” demais. Há um meio termo e um bom senso ao se construir o clima visual dessa obra, o que o deixa visualmente mais bonito.
• Direção de arte fez um bom trabalho, conseguindo deixar o cenário, as roupas, maquiagem e o cabelo da forma como deveria ser. Pecou apenas nos zumbis do Birmingham, barco que Clarisse comanda.
• Os movimentos de câmera usados são interessantes e em alguns momentos chegam a fugir do comum.
Adaptação
O primeiro filme da franquia Percy Jackson e o Ladrão de Raios foi um fiasco nesse quesito, deixando os fãs furiosos e a crítica decepcionada. Em Mar de Monstros houve o intuito de corrigir parte dos erros da obra anterior, como falta de personagens importantes e trama mal estruturada de acordo com a curva dramática do livro. Porém, consertou uns erros e criou outros novos.
Por ser um filme adaptado de uma obra literária, deve-se ter em mente que o resultado final nunca vai ser o mesmo do que está no livro, pois é praticamente impossível transpor mais de 200 páginas para a linguagem audiovisual, sem se tornar algo cansativo e maçante. Considerando uma página escrita igual a um minuto de filme, seria o equivalente a 279 minutos de filme, ou 4h39min. Portanto, é normal que cenas sejam retiradas, ações sejam transformadas e outras modificações aconteçam.
Na adaptação de Percy Jackson e o Mar de Monstros o grande erro foi ter mudado a ordem cronológica de alguns fatos e ter trocado a ilha de Polifemo pelo Parque de Circe, sendo que no livro a feiticeira também tem uma ilha, e não um parque de diversões abandonado. Tudo bem que eles tentaram unir o útil (corte de gastos) ao agradável (poder citar pontos importantes do livro, mesmo sem mostra-los), mas a cena em que Percy é transformado em porquinho-da-índia e Annabeth o salva, deveria ter sido colocada no filme, assim como o encontro com as sereias onde ela conhece seu maior defeito.
Outra coisa que prejudicou a adaptação foi a construção imagética do navio Princesa Andrômeda, onde Luke, Cronos e os demais monstros e semideuses que compõem o lado maligno da história, mantém seu covil. No livro ele é descrito como um cruzeiro e é tão grande como os edifícios de Manhattan, sendo que “o casco branco tinha pelo menos dez andares, e acima dele havia mais uma dúzia de conveses com balcões e vigias iluminados”. Já no filme a embarcação não passa de um pequeno iate e os vários monstros que deveriam estar no navio, não estão.
Há várias outras partes do livro que poderiam ter sido adaptadas pra que o grau de fidelidade fosse maior. Por mais que os erros de Ladrão de Raios tenham sido grotescos, não se pode justificar os atuais pelos do passado. Pra não deixar o texto extenso, estão listados abaixo outros “erros” de adaptação:
- No início do livro Grover não está no Acampamento Meio-Sangue, e sim preso na ilha de Polifemo. Um dos objetivos de Percy é salvá-lo, porém no filme isso se torna um alvo apenas no desenrolar da missão, quando o sátiro é levado para a ilha.
- No livro Tyson é amigo de Percy. Se conheceram na escola Meriwether e um ajudava o outro sempre que preciso. Por causa da névoa Percy não conhecia ver que Tyson era um Ciclope. Entretanto, no filme Tyson aparece no acampamento do nada e logo que Percy o vê percebe se tratar de um ciclope.
- No filme não há Tântalo e não há corrida de bigas (na verdade é substituída por um outro tipo de jogo que é muito massa!).
- Não há a ligação empática entre Percy e Grover.
- Clarisse é mais amigável no filme do que no livro, o que não é necessariamente ruim.
- Uma das falhas que mais me incomodou foi Tyson ser inteligente no filme. Ele conhecia muito de mitologia. No livro ele é mais bobalhão, menos esperto e é bem cômico. No cinema ele continuou engraçado, porém deixa-lo tão esperto foi algo que não me agradou. E ele podia ter chamado o hipocampo de peixe-pônei ou Arco-íris, como no livro, e não por seu nome “técnico”.
- Terem feito com que Cronos aparecesse em sua forma real nesse filme, sendo que isso só ocorre no final da saga. E mais: ele engole Luke e Grover. A maneira como Percy o destrói é ainda mais estranha, um simples golpe de Anaklusmos (que estava sofrendo efeitos do Velocino de Ouro, tornando-se mais forte) e o titã já se parte em pedaços.
Mas é claro que toda a adaptação, por pior que seja, tem seus pontos positivos. Aqui vão os de Percy Jackson e o Mar de Monstros:
- Grover ter aparecido vestido de noiva. Esta foi uma das partes que a maioria dos fãs esperavam ver no filme, e por mais que não tenha sido exatamente como no livro, foi ótimo eles terem colocado.
- A cena em que Luke, Thalia, Grover e Annabeth estão chegando ao acampamento, quando eram crianças, foi simplesmente uma das melhores do filme.
- Eles mencionaram e mostraram várias coisas que estavam no livro, e isso fez com que o segundo filme fosse um pouco mais fiel à obra do que o primeiro.
- A cena em que as irmãs cinzentas aparecem é hilária! E é bem fiel ao que acontece no livro.
- Tentaram melhorar a aparência da Alexandra Daddario para ficar mais parecida com o papel de Annabeth Chase, pintando seu cabelo de loiro e deixando ele trançado durante todo o filme. Porém esqueceram como Clarisse era descrita no filme, e colocaram Leven Rambin, que é linda, para interpretá-la. Felizmente ela fez um bom trabalho.
- As atrizes que interpretaram Thalia Grace, tanto criança quanto mais velha, eram idênticas ao que é descrito no livro.
- O acréscimo da cena do óraculo de Delfos, que não está no livro, mas ficou bem interessante no filme.
Quanto à adaptação acho que é isso que eu tenho pra falar. Talvez tenha faltado alguma coisa, mas boa parte do que eu achei sobre a transposição do filme para o cinema está aí.
Obrigado por terem lido a crítica e qualquer coisa fiquem à vontade para comentar. Voltem sempre ao Scene 66 ;D