Harmonia, harmonia
por Lucas SalgadoAntes de ingressar numa análise sobre Uma Noite em 67, me cabe contar uma breve história. Quando Monique Gardenberg dirigiu Benjamim, adaptação de romance homônimo de Chico Buarque de Hollanda, ela pretendia utilizar cenas de um Festival da Música Popular Brasileira da TV Record em que o cantor se apresentava. Assustada com os valores pedidos para a liberação dos direitos de imagem, a diretora pediu ao próprio Chico que tentasse sensibilizar os executivos da Record. E mesmo assim não conseguiu a liberação e a cena foi excluída do roteiro.
Esta história é importante no sentido de se reforçar o grande mérito do filme, que é justamente resgatar uma das noites mais importantes da MPB através de imagens de arquivo preciosas e muitas vezes perdidas pela vontade mercadológica de corporações (não só a Record, diga-se de passagem). Este último fator ainda permanece, mas felizmente os produtores do filme conseguiram contorná-lo ao convencer a recém-criada Record Entretenimento a aderir a produção.
Comandado por Renato Terra e Ricardo Calil, que estreiam na direção cinematográfica, Uma Noite em 67 é uma viagem ao dia 21 de outubro de 1967, quando, no Teatro Paramount, centro de São Paulo, aconteceu a final do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. Entre os 12 finalistas estavam Chico Buarque e o MPB 4, com "Roda Viva", Caetano Veloso, com "Alegria, Alegria", Gilberto Gil e os Mutantes, com "Domingo no Parque", Edu Lobo, com "Ponteio", Roberto Carlos, com o samba "Maria, Carnaval e Cinzas", e Sérgio Ricardo, com "Beto Bom de Bola".
O longa é absolutamente fascinante, mesclando perfeitamente cenas históricas e entrevistas com pessoas que viveram intensamente aquela noite. Este último dado, por sinal, é um diferencial do filme, que optou por apenas realizar entrevistas com quem de fato participou do Festival. Documentários recentes sobre música, como Coisa Mais Linda, pecam sempre pelo excesso no que diz respeito ao número de entrevistados. Uma Noite em 67 mostra que o importante é a qualidade dos mesmos, e não a quantidade. Em entrevista ao Adoro Cinema, os diretores do filme revelaram, inclusive, terem deixado diversas entrevistas de fora.
Esteticamente, o documentário é absolutamente quadrado. Mostra cenas de arquivo e depois entrevistas, para na sequência voltar às imagens do festival e por aí vai. Neste sentido, a edição é quase que simplória, abdicando de maiores inovações, o que poderia incomodar se a duração fosse maior (já falei de Coisa Mais Linda certo?).
Por outro lado, a falta de uma edição frenética e a manutenção das apresentações completas só aumenta o caráter de preservação histórica do documentário. As imagens existiam e sempre estiveram preservadas, mas o filme surge para torná-las, mais de 40 anos depois, novamente públicas. Apresentações históricas da MPB, como as retratadas aqui, não podem ficar perdidas em um baú, pois representam muito mais do que "o tipo de música que se ouvia na época". Não quero parecer defender a violação de direitos de imagem, mas uma solução deve ser estudada para facilitar o acesso a tais arquivos.
E assim, numa harmonia perfeita entre o histórico (imagens de arquivos) e o novo (entrevistas), Uma Noite em 67 se revela um programa delicioso, não só para os fãs da música popular brasileira, mas também para aqueles que querem saber um pouco mais sobre o momento vivido pelo Brasil no final da década de 60. Em pleno regime militar, uma safra ímpar de artistas atinge um nível de qualidade pouco visto na história da música mundial.