Se você achava que a comédia satírica moderna precisava de mais sofisticação ou sutileza, sinto muito, você está redondamente equivocado. A verdadeira alma do humor, a pureza da paródia sem rodeios, a beleza da crítica crua e despretensiosa podem ser encontradas em um dos filmes mais brilhantes (ou nem tanto) da década de 2010: Os Vampiros que Se Mordam (Vampires Suck), escrito e dirigido pelos mestres do sarcasmo, Jason Friedberg e Aaron Seltzer. Este épico da comédia de terror não apenas revisita a franquia Crepúsculo com uma leveza irreverente, como também redefine o conceito de arte cinematográfica. Caso você não tenha assistido, prepare-se: você está prestes a ser presenteado com um espetáculo digno de muitos prêmios… ou talvez nenhum, mas vamos lá.
É claro que, antes de adentrarmos no reino do deboche e da genialidade satírica de Vampires Suck, é necessário um rápido esclarecimento: Robert Pattinson, eterno ícone de Edward Cullen, certamente deve estar aplaudindo de pé essa obra-prima. Isso porque, como bem sabemos, Pattinson sempre expressou um desprezo quase artístico pelo seu papel na saga Crepúsculo. E, se há algo que Vampires Suck faz com maestria, é exatamente a mesma coisa que Pattinson sempre quis fazer: zombar e desmistificar a história de vampiros idealizados, com uma boa dose de humor ácido. O ator até comentou, certa vez, que os livros de Crepúsculo eram “uma fantasia sexual para mulheres jovens”. Bem, podemos afirmar com segurança que Vampires Suck é a personificação desse pensamento, uma crítica que leva o absurdo a um nível quase transcendente.
Vamos, então, adentrar a análise desta obra fundamental para o entendimento do humor moderno. Em primeiro lugar, temos a protagonista Becca Crane, que, ao invés de se apaixonar por um pálido e melancólico vampiro, se vê atirada em uma dinâmica completamente cômica e exagerada, entre Edward Sullen (a paródia de Edward Cullen, claro) e Jacob White (uma versão carismática e, talvez, um pouco mais fofinha, de Jacob Black). No entanto, a verdadeira trama gira em torno de sua busca desesperada pela identidade de um namorado, enquanto precisa sobreviver aos perigosos jantares de família e, claro, à ameaça constante de um baile de formatura – porque nada diz “romance” como um evento social do ensino médio. Os diálogos, inebriados por uma ironia sem freios, são um prato cheio para qualquer fã de comédia que aprecie o estilo de paródia que não poupa nem um resquício de seriedade.
No entanto, é preciso entender que Vampires Suck não é um filme para os fracos de coração. Ele se permite, de forma quase impudente, zombar da fórmula cansada dos filmes de vampiro adolescentes, com um humor físico exagerado, piadas rápidas, referências hilárias e, claro, uma inacreditável paródia das personagens femininas e suas tendências autossuficientes. Becca, por exemplo, não é apenas a “Bella Swan” em versão cômica – ela é o retrato perfeito de uma jovem que, diante de um mundo insano, tenta achar algum sentido. Se a Bella de Kristen Stewart é marcada por uma introspecção angustiante e por diálogos sem emoção, a Becca de Jenn Proske brilha com uma angústia que beira o ridículo, o que é mais do que merecido. O tom cômico das suas expressões “angustiadas” – que vão do morder os lábios ao olhar de quem acabou de descobrir a última temporada de Game of Thrones – é um deleite para os fãs da paródia. Quem precisa de um arco dramático quando você tem uma personagem que literalmente tropeça no próprio destino?
No entanto, Vampires Suck não está apenas interessado em criticar Crepúsculo e suas sequências. Não, o filme também sabe cutucar a cultura pop de uma forma inteligente. Ele se permite escarnecer da ideia de “amor eterno” e “sacrifício vampírico” com uma leveza assustadora, mas ao mesmo tempo com um olhar atento sobre as falácias das relações idealizadas. Como em toda boa paródia, os clichês são elevados ao status de piada universal, e é impossível não perceber que os próprios roteiristas, Friedberg e Seltzer, estão claramente brincando com o absurdo da saga original. Se Crepúsculo é uma fantasia sexual adolescente travestida de romance, Vampires Suck é a versão em que os protagonistas se veem forçados a rir de si mesmos, como quem diz: “Se você acha que estamos exagerando, é porque estamos.”
Ao final do filme, depois de assistirmos à inusitada transformação de Jacob em um chihuahua (sim, você leu certo), a verdadeira vitória de Vampires Suck está no seu potencial de ressignificar o conceito de “paródia de uma paródia”. O filme não se limita a ser uma simples sátira de Crepúsculo, mas um comentário sobre a própria ideia de que certos mitos e personagens são elevados a um status irrelevante por causa do culto à figura do “bad boy” imortal. Por isso, Robert Pattinson, mesmo depois de anos fugindo do fantasma de Edward Cullen, deve olhar para Vampires Suck como uma verdadeira obra de arte cinematográfica, uma obra que desmascara, com maestria e ironia, o próprio filme que ele odiou tanto.
Agora, se você, caro leitor, procura por um filme com uma estrutura narrativa profunda, com diálogos refinados e uma reflexão existencial de alta qualidade, este filme pode não ser para você. Mas, se você se permite rir da farsa que é a eterna “história de amor sobrenatural” e está disposto a entrar de cabeça em um mar de ironia e deboche, então Vampires Suck é o que você precisava. Uma comédia que não poupa nem mesmo seus próprios defeitos – uma verdadeira celebração do absurdo.
Os Vampiros que Se Mordam é um monumento cinematográfico, uma pedra angular da crítica mordaz e um presente para todos que, assim como Robert Pattinson, desejam ver o império de Crepúsculo desmoronar em uma avalanche de risos. Quem sabe até um dia, no futuro distante, Pattinson, com um sorriso irônico no rosto, levante uma taça em homenagem a essa magnífica paródia, como um gesto de agradecimento ao filme que, com talento e deboche, ajudou a mostrar o quão ridículo realmente era o fenômeno vampírico. Quem nunca precisou de uma boa risada para curar as feridas de um passado glorioso que nos consome, não é mesmo?