Melancolia
Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
Melancolia

Banho de Melancolia

por Francisco Russo

O planeta Terra será destruído. É assim, sem qualquer esperança, que começa Melancolia. Belas imagens, poéticas e com um ritmo próprio, narram o fim de tudo como se fosse um balé coreografado. Os planetas dançam como se um reverenciasse o outro antes do bote final. “Ninguém sentirá falta da Terra”, será dito mais adiante. Uma visão cética e, ao mesmo tempo, realista diante da vastidão do universo e da insignificância dos terráqueos diante dele. Apenas uma das várias mensagens enviadas por Lars von Trier ao longo de seu novo filme.

Após um início impactante, Melancolia volta no tempo para contar sua história. Ou melhor, duas histórias que pouco têm em comum além do fato de terem os mesmos personagens. Assim como fizera em Dogville, von Trier divide o filme em partes, dedicadas a cada uma das irmãs, Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg). São histórias quase independentes, interligadas na melhor compreensão do aspecto emocional dos personagens principais, o que coloca em risco a harmonia do filme como um todo pela diversidade dos temas retratados e o desnível de qualidade entre elas.

A primeira parte é focada em Justine, prestes a se casar com Michael (Alexander Skarsgard). O clima festivo de início aos poucos é destruído pela rigidez do horário, imposto pela irmã Claire e seu cronograma inflexível. Logo surgem os primeiros focos de que há algo de podre no casamento. Seja a instabilidade emocional de Justine, com altos e baixos cada vez mais radicais, seja pela eclosão de picuinhas familiares e de trabalho que não podem ser escondidas debaixo do tapete. A festa acontece, mas ela é apenas aparente. No fundo não há motivo para comemorar.

A revelação de podres escondidos a sete chaves, que surgem de forma abrupta devido a situações de momento, faz com que a primeira metade de Melancolia lembre bastante Festa de Família, drama feito na terra natal do próprio von Trier, a Dinamarca. Apesar de atrair de início, o ritmo lento e a falta de novidades na proposta fazem com que o filme se torne um pouco cansativo. É mais do mesmo, algo que von Trier não está acostumado a fazer. O que demonstra exatamente na segunda parte do filme.

A mudança é radical. O casamento de Justine é passado e o único reflexo é sua entrega à depressão absoluta, daquelas que deixam a pessoa imobilizada. Entretanto, a preocupação maior agora é outra. O planeta Melancolia se aproxima cada vez mais da Terra e, segundo muitos cientistas, irá se chocar e destruir o planeta. Claire está apavorada com a possibilidade e apenas consegue se acalmar graças às palavras de John (Kiefer Sutherland), seu marido, estudioso do universo que tem a convicção de que o choque será evitado por um triz.

A segunda parte assume de vez o lado ficção científica do filme. Não espere por grandes cenas de destruição ou algo do tipo. Von Trier quer esmiuçar o misto de fascínio e temor diante do espetáculo visual que é a aproximação de Melancolia. O que está em jogo é, mais uma vez, as relações humanas, agora sob a ótica do fim iminente e de como se comportar diante dele. Medo, compaixão, desespero, proteção, conformismo, fantasia... todas estas sensações estão representadas no trio Claire/John/Justine, em um crescente de aflição que culmina no derradeiro fim, literalmente. Algo anunciado desde o início do longa-metragem, mas impactante pela forma como sua chegada é construída e pela belíssima analogia da caverna mágica, resquício do sonho em um momento onde a ciência não saiu vitoriosa.

Melancolia impressiona especialmente pelo início e sua segunda metade, quando assume a função de analisar o ser humano diante de seu extermínio. Trata-se de uma ficção científica cujos olhos são voltados para a própria Terra, sem extraterrestres ou ameaças de invasão. O homem e seu comportamento, como pessoa e civilização, é o que está em jogo. A boa atuação de Kirsten Dunst, a melhor de sua carreira, e um punhado de cenas marcantes também se sobrepõem à instabilidade provocada por temas tão distintos entre suas duas metades. Por mais que também fale de relações humanas, sob uma ótica mais realista, a primeira parte fica muito aquém do exibido no restante do filme. Não é o melhor trabalho de Lars von Trier – ao menos Dogville e Dançando no Escuro são superiores –, mas merece ser visto. Nem que seja apenas para se questionar o que faria diante de tal situação, onde o planeta tem data e hora marcadas para morrer.

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