As Viagens de Gulliver
Críticas AdoroCinema
1,0
Muito ruim
As Viagens de Gulliver

Desastre Tamanho Família

por Francisco Russo

A proposta inicial de As Viagens de Gulliver era boa. Pegar a clássica história criada por Jonathan Swift e adaptá-la aos dias atuais, recheando-a com referências à cultura pop do mundo moderno. Para conduzir a aventura o escolhido foi Jack Black, sucesso com seu jeito amalucado desde Alta Fidelidade. O que parecia ser uma boa ideia foi por água abaixo graças, especialmente, a um problema que tem atingido vários filmes hollywoodianos nos últimos anos: a necessidade de tornar tudo o mais infantil possível.

Desta forma, não basta colocar em cena a famosa história do homem que, por acaso, chega a uma cidade habitada por homens pequeninos. A trama, por si só, já é voltada ao público jovem, trazendo vários ensinamentos. É preciso infantilizá-la cada vez mais, o máximo possível, de forma a - teoricamente - abranger um público maior. Assim sendo, dá-lhe luta em que um puxa a cueca do outro. Ou cena em que o gancho dos minúsculos cidadãos de Lilliput prende na calça de Jack Black, mostrando sua bunda. Ou ainda o inusitado, e grotesco, desenlace na sequência do incêndio no castelo. Todas piadas tolas, infantilóides, que jogam por terra a história original e ainda algumas boas sacadas relacionadas à cultura pop.

Entretanto, este não é o único problema do filme. O roteiro abusa do uso de "licenças poéticas", aplicadas quando algo absurdo acontece sem uma explicação convincente. Os efeitos especiais são pífios, gerando cenas constrangedoras como a do rodamoinho vertical ou a da água computadorizada, quando Gulliver entra no mar. Além disto há várias propagandas embutidas, não apenas de produtos de consumo mas de um estilo de vida. A nova Lilliput, construída sob a influência de Gulliver, é um exemplo disto: Manhattan é o paraíso, o local ideal para se viver. É o american way of life sendo vendido mundo afora, de forma explícita.

O que provoca algum interesse são as breves citações à cultura pop, associadas à presença de Gulliver. As apresentações no teatro de Lilliput são bacanas, assim como o totó com os habitantes da cidade. Algumas renomeações de sucessos do cinema e do teatro são inspiradas, mas insuficientes para prender a atenção. Assim sendo, estes pequenos detalhes que agradam acabam sendo engolidos pela quantidade de situações bobas que o filme apresenta.

Apesar de ter apenas 85 minutos, As Viagens de Gulliver deixa a sensação que o espectador passou por um longo e extenuante martírio. O curta-metragem exibido antes, com o personagem Scrat, de A Era do Gelo, é muito superior. Uma boa demonstração de como atingir o público infantil sem deixar de usar a inteligência.

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