Um dos elementos que diferenciam o Homem de Ferro de outros super-heróis é o fato de que o seu alter-ego humano, o empresário do ramo bélico, Tony Stark (Robert Downey Jr.), não possui um super poder. Se pudéssemos, aliás, fazer uma analogia, poderíamos dizer que Tony Stark é o Bruce Wayne da Marvel. Milionário, irônico, playboy e bon-vivant, Stark é um anti-heroi que vê a sua vida mudar por completo quando ele decide utilizar aquilo que ele tem de mais extraordinário (a sua inteligência) em prol do bem da humanidade (quando ele cria a armadura que o Homem de Ferro enverga), ao ajudá-la a se livrar das suas maiores ameaças, que, por boa parte das vezes, são representadas também por outros seres humanos.
Talvez, por isso mesmo, um dos grandes acertos de “Homem de Ferro 3”, filme dirigido e co-escrito por Shane Black, é colocar como antagonista de Tony Stark/Homem de Ferro um homem tão ou mais inteligente do que ele. Aldrich Killian (Guy Pearce) também é um empresário, mas, diferente de Tony Stark, ele evita os holofotes. De uma certa maneira, o serviço dele também é para o bem da humanidade, na medida em que ele trabalha com uma tecnologia que regenera tecidos mortos – e o público-alvo de Killian é muito bem definido, neste sentido: ex-militares que tiveram seus membros amputados. No entanto, Killian é mestre em manipular as mentes das pessoas e ele cria toda uma conjuntura que faz com que o mundo acredite que esteja envolvido em uma grande batalha entre dois lados polarizadores: o mundo democrático como o conhecemos (e liderado, claro, pelos Estados Unidos) e aquele dominado por um líder chamado Mandarin (Ben Kingsley), que ameaça todos os ideais de liberdade e de justiça que são os pilares de uma sociedade como a norte-americana.
Quando se tem um vilão que joga com cartas tão pessoais e que mexe com a moral das pessoas, é inevitável que se tenha também, do outro lado, um herói que leve tudo isso como se fosse uma afronta contra ele mesmo. Se Tony Stark, antes da presença de Aldrich Killian, atuava como se estivesse obcecado em aperfeiçoar seu instrumento de trabalho, relegando para o segundo plano tudo aquilo que fazia parte de sua vida – como o relacionamento com Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) e a sua própria empresa –, após a ascensão do antagonista, “Homem de Ferrro 3” vira um filme que mostra a verdadeira chave de braço que é detonada entre dois homens que brigam um contra o outro utilizando a arma mais poderosa que cada um deles possui: a inteligência e a tecnologia que ambos têm ao seu dispor.
Por isso mesmo, chama a atenção em “Homem de Ferro 3” o fato de que este é um filme de ação sem muitas ramificações da sua trama principal. Tudo está muito bem encaixado no roteiro escrito por Shane Black e Drew Pearce. Por falar no trabalho desenvolvido pelo diretor, Shane Black (em sua segunda experiência no comando de um longa-metragem) surpreende criando um filme de ação consistente, com ótimos vilões, que aproveita bem os seus atores coadjuvantes (exemplos de Gwyneth Paltrow e Jon Favreau) e que realmente mostra qual é o diferencial de Tony Stark. Não é só o fato de ele ser interpretado com maestria por Robert Downey Jr., que domina muito bem todo o jogo sarcástico e de ironia que faz parte da personagem. Mas também a condição inerente, que já está fixada em sua cabeça: a de que não existe mais Tony Stark sem Homem de Ferro e vice-versa. De uma certa maneira, “Homem de Ferro 3” chega a ser um alívio perto das pretensões megalomaníacas do grande projeto da Marvel: “Os Vingadores”. É um filme que permite que o Homem de Ferro volte às suas origens, fazendo aquilo que ele sabe de melhor.