Palavreado Mudo.
Comédias geralmente são aceitas pelo público com mais facilidade, haja vista que este tipo de gênero raramente acrescenta algo de novo ao cinema, bastando repetir fórmulas consagradas e gags ao gosto do cliente que tudo está bem. Em algumas situações surgem filmes com um conceito que aborda algo mais profundo que o tradicional, contendo mensagens reflexivas fantasiadas com boa dose de comédia, a exemplo deste As Mil Palavras.
Eddie Murphy é Jack McCal, um agente literário falastrão que leva a vida na base da lábia, sempre convencendo os outros a fazer algo calcado puramente em seus interesses pessoais. Como de costume, surge uma oportunidade milionária para um livro cujo escritor é uma espécie de guru altamente reconhecido no meio, porém, sem qualquer interesse financeiro com seu trabalho. Trata-se do Dr. Sinja (Cliff Curtis), um homem respeitado por suas capacidades em atrair público usando métodos de ajuda espiritual, sempre preocupado no bem estar do ser humano. Com a recente informação de que Sinja dispõe de um livro para publicar, McCal entra em ação, convencendo o guru a assinar um acordo, porém, isso gera um revés no carma do protagonista, forçando-o a falar cada vez menos.
A interessante forma encontrada pelos roteiristas para frear o falatório de McCal se dá por meio de uma árvore que surge na casa do sujeito, as folhas de tal vegetal representam o tempo de vida que resta para o personagem, ou seja, cada palavra pronunciada leva uma folha ao chão. Essa tratativa gera imensas situações inusitadas, principalmente porque o personagem principal é apresentado como uma metralhadora de palavras logo no começo, deixando-o a beira da loucura, pois só pode se comunicar por meio de mímicas.
Evidente que aos cuidados do ator Eddie Murphy a brincadeira ganha contornos ainda mais divertidos, pois ele está plenamente a vontade no papel. A falas que ele solta parecem ter sido escritas sob medida, pois mesmo ao oscilar entre a arrogância das articulações insensatas e o desespero diante da impossibilidade de falar, percebemos nitidamente como ele se sente.
O diretor Brian Robbins soube aproveitar bem seu elenco, tendo inclusive uma ponta do francês Alain Chabat que chega a ser hilária pelo resultado completamente sem noção. O próprio assistente de McCal, o jovem Aaron (Clark Duke) em nada destoa, tendo um timing cômico propício às situações inusitadas que o roteiro deixa em suas mãos. E ainda temos o ótimo Cliff Curtis, respondendo pelo personagem Sinja, um guru zen e cheio de espiritualismo.
Embora ainda possua um tom reflexivo, já que a mensagem maior por trás do roteiro releva as artificialidades do ser humano em querer mostrar apenas sua postura em formato de palavras, muitas vezes até mesmo ignorando a verdade em prol de um resultado, AS MIL PALAVRAS compila boas atuações e diversão. Como diz a máxima, as imagens valem mais do que mil palavras, nesse caso, literalmente.