Robin Hood
Críticas AdoroCinema
3,5
Bom
Robin Hood

Robin antes de Hood

por Francisco Russo

Poucas histórias tiveram tantas adaptações cinematográficas quanto Robin Hood. De Errol Flynn a Kevin Costner, vários foram os atores que já encarnaram o célebre personagem. Trazê-lo de volta seria de imediato um risco, pela necessidade em apresentar algo de novo que justifique sua existência. Uma mera releitura para o público atual faria com que entrasse na lista de produções descartáveis, que nada acrescentam ao que já se conhece sobre o personagem. Ridley Scott e Russell Crowe sabiam disto e encararam o desafio. Com sucesso.

Robin Hood não traz propriamente a história que consagrou o personagem, na qual se esconde na floresta de Sherwood e rouba dos ricos para dar aos pobres. Indícios dela estão presentes, como uma espécie de apresentação do que estaria por vir. O novo filme de Ridley Scott conta o que aconteceu com Robin antes de ganhar a alcunha de Hood, quando era apenas Robin Longstride. Uma decisão ao mesmo tempo ousada, por abdicar da história que está no inconsciente coletivo geral, mas também necessária para que a trama fosse recriada com uma certa liberdade.

Aqui Robin é um dos guerreiros do rei Ricardo Coração de Leão, ainda em plenas cruzadas. Um rei também modificado, devido ao seu semblante cansado e decadente, e por seu breve destino no decorrer da trama. Encarregado de realizar o último desejo do moribundo Robert Loxley, ele parte para Nottingham para entregar uma espada ao pai dele (Max von Sydow, impondo respeito). Lá conhece Marion, a esposa de Loxley, com quem se envolve.

Com a clássica história posta de lado, Robin Hood aposta firme na questão política. O sempre complicado relacionamento da família real com o povo, ora servindo de inspiração ora desprezando-o, é personificado pelo rei Ricardo e o príncipe João. A disputa ferrenha entre Inglaterra e França vem à tona com Godfrey (Mark Strong, mais uma vez mostrando que nasceu para interpretar vilões). A preocupação em ter um país unido, independente de quem seja o comandante, está com William Marshal (o xará Hurt, apenas correto). Todos estes elementos fazem com que o filme ganhe um forte tom nacionalista, de defender a pátria - inglesa, é claro. Robin Longstride, já na reta final, torna-se uma espécie de herói nacional, ao menos dentro das circunstâncias possíveis. É a deixa necessária para que a lenda se torne maior que o homem.

Outra mudança importante tem a ver com a figura de Marion. Não se trata mais da donzela disputada, mas de uma mulher determinada e guerreira - em determinado momento, literalmente. A imagem da mulher forte, de certa forma em pé de igualdade com Robin, é uma modificação importante em relação às versões anteriores. Além disto, o filme conta com uma Cate Blanchett inspirada. Sem maquiagem e com uma aparência rústica, Blanchett brilha nas mudanças sutis que transparece nas situações em que Marion é pressionada. É uma atuação minimalista e bastante precisa para o que o papel necessitava.

Russell Crowe repete com competência o personagem íntegro e de certa forma bruto, com o qual fez sucesso em Gladiador. Inclusive, as cenas de batalha campal lembram bastante não apenas este mas também Cruzada. Não por coincidência, ambos também foram dirigidos por Ridley Scott. Em Robin Hood o diretor mais uma vez deixa sua marca, através da beleza realista e na violência das cenas de guerra.

Robin Hood é um filme que surpreende pelos caminhos trilhados pela história e pela realocação de personagens conhecidos, como o frei Tuck e João Pequeno. Todos presentes e facilmente reconhecíveis, apesar de não participarem tanto. Destaque também para a homenagem prestada à famosa cena da câmera acompanhando a trajetória da flecha, que se tornou marca registrada do Robin Hood de Kevin Costner. Aqui ela reaparece, duas vezes, mas também trazendo novidades. Um bom filme, que soube usar uma história batida para produzir algo de novo. Ou nem tanto assim, já que há também várias referências a trabalhos anteriores de Ridley Scott e Russell Crowe. Independente disto, vale a pena.

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