Um Dia Daqueles surge como uma das primeiras surpresas positivas de 2025, conquistando público e bilheteria com uma mistura cativante de comédia, caos urbano e carisma de suas protagonistas. Com um orçamento modesto de 14 milhões de dólares e uma arrecadação que já ultrapassa os 50 milhões, o longa dirigido por Lawrence Lamont prova que energia, autenticidade e boas atuações podem valer mais do que grandes efeitos ou tramas mirabolantes. O filme também marca a carreira de SZA, que faz sua estreia como atriz, dividindo os holofotes com Keke Palmer, já reconhecida no cinema. Apesar da inexperiência da cantora no campo da atuação, a química entre as duas é tão forte que se torna o verdadeiro combustível da narrativa.
A trama é simples, mas embalada por um ritmo frenético: acompanhamos um dia totalmente fora do comum na vida de duas amigas, que enfrentam uma sequência de acontecimentos absurdos com uma mistura de desespero e bom humor. Lamont, que até então havia se dedicado a videoclipes e pequenas produções, estreia nos cinemas com um olhar bastante sensível ao universo retratado. Seu maior acerto está em entender os limites da estreante SZA, apostando fortemente no timing cômico e na espontaneidade que o duo principal consegue transmitir. A comédia aqui nasce não só dos diálogos, mas de situações inusitadas e exageradas que parecem ter saído diretamente de um episódio caótico de algum seriado urbano — e é justamente nesse exagero que o filme encontra sua identidade.
Ainda que o roteiro de Syreeta Singleton não busque grandes explicações ou resoluções lógicas para os inúmeros eventos que se desenrolam, essa escolha é consciente e contribui para a leveza da obra. Os furos e absurdos fazem parte do charme. A proposta nunca foi entregar uma comédia com os pés no chão, mas sim algo próximo do surreal cotidiano de quem vive à margem, tentando sobreviver a mais um dia num sistema que falha com seus cidadãos. Em meio ao caos, o filme ainda consegue fazer críticas sutis — porém afiadas — ao sistema de saúde americano, à desigualdade social e à constante busca por dignidade numa cidade que engole sonhos e corpos com a mesma naturalidade.
A ambientação é outro ponto alto. Filmado de fato nas ruas de Los Angeles, Um Dia Daqueles tem uma textura quase documental em alguns momentos. A estética traz a vibração do subúrbio, a musicalidade da cultura negra e uma sensação de pertencimento que extrapola a tela. O espectador se sente transportado para aquele universo desde os primeiros dez minutos, e parte disso vem da direção segura de Lamont, que consegue equilibrar a comédia com uma narrativa clara e dinâmica.
Apesar de alguns deslizes no ritmo — especialmente quando algumas piadas ultrapassam a linha do engraçado para o forçado — o filme raramente perde o interesse do público. Os tropeços são pontuais, compensados por sequências tão inusitadas quanto divertidas, que mantêm o espectador sempre curioso pelo que virá a seguir. O terceiro ato, no entanto, apresenta a mudança mais brusca de tom. O senso de urgência que já havia sido estabelecido desde o início ganha uma carga dramática mais evidente nos momentos finais, e mesmo que o filme tente manter a veia cômica até o último minuto, a transição de humor para drama não é totalmente fluida. Ainda assim, o saldo é positivo, e a tentativa de trazer uma dramaticidade em seu desfecho, mesmo que tardia, funciona dentro da proposta.
Um Dia Daqueles é um filme sobre amizade, azar e resiliência. É uma comédia que não tem medo de abraçar o absurdo, e que encontra no caos urbano uma forma de traduzir os dilemas contemporâneos de quem apenas quer viver mais um dia em paz. Com protagonistas carismáticas, uma direção promissora e uma energia contagiante, o longa se consolida como uma estreia promissora de Lawrence Lamont. Ainda que imperfeito, é irresistivelmente divertido.