Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
A Semente do Fruto Sagrado

Indicado ao Oscar 2025, A Semente do Fruto Sagrado se desenvolve de forma sólida através das analogias

por Rafael Felizardo

Há décadas o Irã navega por águas turbulentas no Oriente Médio, transitando por uma política complexa que foi responsável por moldar o seu caráter aos olhos do Ocidente. Se deste lado do mundo cultivamos a ideia de que o país é mergulhado majoritariamente em conflitos étnicos-religiosos, não há como negar que ele é também reconhecido por sua excelência na sétima arte, dando à luz obras de qualidade ímpar como O Apartamento, A Separação, Baran, Close-up e outras.

Desta forma, 2024 reservou mais um capítulo na epopeia do cinema iraniano, assinado, agora, pelo diretor e roteirista, Mohammad Rasoulof. Aqui, estamos nos referindo essencialmente a A Semente do Fruto Sagrado, um longa-metragem de grande personalidade e que concorre à estatueta de Melhor Filme Internacional no Oscar 2025 - ao lado de Ainda Estou Aqui.

A Semente do Fruto Sagrado é um dos projetos mais pessoais de seu diretor

A Semente do Fruto Sagrado nos ambienta na vida de Iman, um funcionário do Governo recém promovido ao cargo de juiz investigador do Tribunal Revolucionário de Teerã, a capital do Irã. Após a promoção, a felicidade de Iman dura pouco, pois ele começa a sofrer com resistências internas ao tentar cumprir seu trabalho.

A situação fica ainda pior quando ao levar a nova arma de fogo para casa, o objeto acaba desaparecendo sem deixar rastros. A partir de então, uma corrida para encontrar a pistola é iniciada por nosso protagonista, colocando, em jogo, inclusive, certa desconfiança em relação à esposa e às duas filhas.

Pyramide Distribution

Antes de começar esta análise, vale a pena apresentar um contexto que pode iluminar alguns pontos relacionados ao longa. Iraniano de nascença, o diretor Mohammad Rasoulof foi condenado a oito anos de prisão - além de açoitamento e confisco de bens - um mês antes da estreia de A Semente do Fruto Sagrado, com a justificativa do Estado de que o cineasta seria responsável por obras supostamente “inapropriadas”.

Após a sentença, e enquanto entrava com um recurso, Rasoulof aproveitou para fugir e se esconder na Europa por quase um mês - em uma jornada a pé pelas montanhas do Irã que durou em torno de 28 dias. Na França, ele estreou seu filme no Festival de Cinema de Cannes de 2024, utilizando a trama como uma espécie de denúncia para os horrores que a população iraniana vinha sofrendo por parte das forças do Governo.

Com isso em mente, não é absurdo algum afirmar que A Semente do Fruto Sagrado é um dos projetos mais pessoais de Rasoulof. Em diversos momentos do enredo, o espectador é exposto a filmagens reais de conflitos violentos envolvendo o Estado e o povo, um recurso potente que acrescenta verossimilhança à narrativa.

Além disso, por mais que apresente um lado do Irã virado para as mazelas, a produção também rompe com o estereótipo de “terra unicamente arrasada” que o Ocidente tem do país. Se no decorrer dos anos Hollywood nos empurrou goela abaixo a ideia de um Irã com construções quebradas, pobreza de serviços e mais, A Semente do Fruto Sagrado exibe uma faceta da nação asiática que o nosso preconceito dificulta a concepção - com direito, inclusive, a Coca-Cola em cima da mesa durante as refeições.

O filme apresenta um andamento lento que pode ser cansativo para alguns

Com quase três horas de duração, A Semente do Fruto Sagrado pode se tornar um problema para alguns, principalmente por seu andamento lento que vai na contramão dos populares blockbusters hollywoodianos. A forma de Rasoulof contar a sua história é única e reflete uma característica do audiovisual asiático, que preza pelo cozinhar de suas histórias em detrimento de um ritmo mais dinâmico.

O ponto que mais me incomoda no filme é que há uma desconexão entre suas duas metades - chegando, de certa forma, a parecer duas produções diferentes. Até o sumiço da arma, A Semente do Fruto Sagrado se desenvolve de maneira brilhante, apenas para deixar cair o nível com toda a trama de cárcere/perseguição apresentada na parcela final.

Em uma conversa sobre o longa com uma colega de trabalho, ela apontou que a perseguição no fim a lembrou da animação Scooby Doo - comentário que na hora me tirou uma risada. Reassistindo ao filme, de fato, a caçada estrelada pela família protagonista me evocou a série animada da Hanna-Barbera - e uma vez visto ficou impossível de ser desvisto.

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A Semente do Fruto Sagrado encontra um acerto em seus detalhes...

Em seu âmago, A Semente do Fruto Sagrado concentra o microcosmo de uma família para mergulhar nas dores da sociedade iraniana. Iman, personagem interpretado pelo ator Missagh Zareh, é o patriarca do clã, um homem que divide de maneira desigual o seu tempo ao colocar as tensões do emprego acima dos deveres como pai. Inicialmente, a sólida atuação de Zareh leva o espectador a tomar Iman como uma mera figura omissa, mas o desenrolar da trama expõe uma face autoritária residente no personagem - justificada quase sempre por sua visão religiosa radical.

Se na rua os abusos do Estado levam a população a romper com o regime vigente, dentro da casa de Iman, a mesma dinâmica se repete, em uma analogia empregada pelo diretor de que o macro e o micro estão essencialmente interligados.

Em muitas das tomadas de maior tensão, a bela fotografia comandada por Pooyan Aghababaei ganha destaque, com enquadramentos fechados e lentos que aumentam a carga de dramaticidade. Da mesma forma, a trilha sonora de Karzan Mahmood assume uma caraterística mais densa, criando uma atmosfera que casa perfeitamente bem com tudo o que desfila em tela.

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...e eles fazem toda a diferença

Logo no início do longa, o espectador é apresentado a dizeres sobre a Ficus Religiosa, uma figueira que possui um ciclo de vida bastante particular. Na natureza, essa árvore tem sua semente espalhada através das fezes dos pássaros, que cai sobre outras plantas e as estrangula completamente ao se desenvolver.

Em outras palavras, o vegetal sobrevive sufocando o seu semelhante, exatamente como o Estado autoritário criticado por Rasoulof. A Semente do Fruto Sagrado é um filme capaz de conversar com o espectador em diversos níveis, e esse é um dos maiores acertos do cineasta iraniano.

E se o começo carrega uma forte mensagem, o fim não poderia ser diferente. Nos momentos finais, Rasoulof ainda tem fôlego para deixar uma última cartada, desenvolvendo entre as entrelinhas que toda tirania deve ser enterrada para que os oprimidos sigam em frente.

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