Um espelho dos filmes policiais do passado
por Vitória PratiniFilmes policiais sobre investigações de casos de serial killer (assassino em série) foram sucesso nas décadas de 1990 e 2000. Produções como Zodíaco, Seven - Os Sete Crimes Capitais, O Silêncio dos Inocentes e O Colecionador de Ossos foram hit, e muitos deles traziam Denzel Washington no papel do investigador que acabava se envolvendo emocionalmente com o caso. Os Pequenos Vestígios parece um espelho dessa época e desses longas-metragens.
Ambientado nos anos 90 em Los Angeles e com um roteiro escrito em 1997 pelo diretor John Lee Hancock (Um Sonho Possível, Fome de Poder), o filme tem vários elementos conhecidos: é estrelado por Denzel Washington, tem um tom bastante masculinizado, e traz um clima de tensão em relação a estranhos assassinatos. Os Pequenos Vestígios definitivamente aposta na nostalgia, fazendo inclusive referência a detetives clássicos como Columbo e Kojak. No entanto, é mais do mesmo e não consegue inovar o gênero criminal — atualmente muito popular nas séries de TV como True Detective e Mindhunter, além das franquias Criminal Minds, FBI, CSI, NCIS e Law & Order.
Os Pequenos Vestígios tem elenco de ganhadores do Oscar
O grande trunfo de Os Pequenos Vestígios é trazer no elenco três ganhadores do Oscar: Denzel Washington, Rami Malek e Jared Leto. Não precisa nem dizer que eles são excelentes atores, mas nem sempre o papel faz um match adequado.
Na trama do thriller de ação, Washington interpreta Joe "Deke" Deacon, um ex-detetive de Los Angeles que é enviado de volta a cidade para uma rápida coleta de evidências. Só que acaba se envolvendo na busca de um assassino em série. Ele então é contratado por Jim Baxter (Rami Malek), sargento que lidera a caçada e se torna "pupilo" de Deke. Enquanto eles rastreiam o assassino, a investigação desenterra ecos do passado de Deke, revelando segredos perturbadores que podem ameaçar mais do que o caso. O filme faz questão de deixar no ar desde o início um mistério em torno do passado do detetive e do motivo de ele ter deixado a cidade, afinal, era um investigador talentoso e condecorado.
Washington, que divide seu tempo de carreira entre filmes de Oscar e longas de ação como O Protetor, parece confortável e se divertindo no papel. O astro veterano, bom demais para seu personagem, transita bem como o mentor que tem um segredo a esconder: no exterior, é enigmático e imponente, mas a portas fechadas, mostra seu conflito interno enraisado.
Enquanto isso, Malek simula durante todo o filme a expressão facial insossa de Elliot em Mr. Robot, o que combina mais com seu personagem na série de TV do que com Jim Baxter em Os Pequenos Vestígios. Falta um pouco daquela chama que ele apresentou em Bohemian Rhapsody, que lhe rendeu uma estatueta do Oscar.
Ao mesmo tempo, Jared Leto aposta em mudanças físicas, como lente de contato e enchimento, para interpretar Albert Sparma. O personagem claramente surge como principal suspeito. Por mais que Leto esteja perfeito no papel, parece mais um clichê da produção. Afinal, por que mais uma cara "conhecida" teria sido escalada para o papel? Ainda mais o ator já interpretou inúmeros "antagonistas", incluindo Coringa em Esquadrão Suicida e Liga da Justiça - Snyder Cut; David Chapman em Capítulo 27 - O Assassinato de John Lennon, e em breve Morbius no filme da Sony.
Trocas entre os atores são algumas das melhores sequências de Os Pequenos Vestígios
Destaque posititivo para a cena do interrogatório de Sparma, no qual Denzel Washington e Jared Leto se enfrentam de igual para igual e dão um show. Como tudo é muito suspeito, temos a sensação de que ninguém está sendo verdadeiro ali.
O filme ainda tem um ótimo momento roadtrip (viagem de carro), que eleva o tom da produção e transforma uma perseguição de carro em quase uma brincadeira de pique pega, que chega a ser intrigante e divertida. Não só porque desenvolve o relacionamento entre Deke e Baxter, mas também porque insere canções clássicas no rádio, que fazem total sentido para a a trama, como "My Guy", de Mary Wells, e "I Will Follow Him", de Peggy March (alô, fãs de Mudança de Hábito).
Os Pequenos Vestígios pode até ser um filme "padrão", mas pode ser encarado como um ode aos longas-metragens antigos. A estética vintage, a fotografia esverdeada e a trilha sonora marcante contribuem para o clima de tensão, que deixa o espectador com os nervos à flor da pele. Com um final dúbio, a produção provoca o questionamento de tudo o que foi mostrado até então e, apesar de frustrante para o espectador, é o melhor que eles poderiam ter feito em seu encerramento.