A isca não é a que parece ser
por Barbara DemerovUm protagonista com um passado que está cheio de buracos, uma ilha no meio do nada e um pequeno grupo de pessoas que está ali à deriva, como se estivesse esperando por algo que aparentemente nunca chegará. Este é o cerne de Calmaria, cujo título só faz ligação ao nome do barco de Baker Dill (Matthew McConaughey), pescador focado inteiramente em pescar um peixe considerado "imaginário" por muitos que vivem ao seu redor. Logo em sua primeira cena, o filme já dá um pequeno vislumbre (ou até mesmo uma dica) do que estamos prestes a acompanhar: um drama movido por uma sensação que mistura afastamento com observação.
O roteiro de Calmaria possui muitas camadas e, por mais confuso que pareça ser num primeiro momento, se prova bem capaz de conduzir a história de modo que ela não se torne maçante. Se por vezes alguns diálogos ou situações soam muito fora da realidade, as explicações que vão sendo apresentadas sutilmente pavimentam um terreno interessante, sem pressa alguma de já deixar a situação completamente clara. Assim, uma incógnita sempre paira no ar e no mar.
As locações do filme, além de belíssimas, se encaixam perfeitamente naquela realidade em que Baker Dill vive, mas ao mesmo tempo são bem divergentes com seu eu interno. O personagem tenta lidar com angústias crescentes por não saber o que está fazendo com sua vida, e os ambientes iluminados (quase sempre externos, mostrando a beleza da natureza) dão o contraste. Por fora tudo parece funcionar, mas por dentro não é bem isso. Ao contar os detalhes de sua vida "passada" com o filho e a ex-esposa, Baker Dill vai ganhando profundidade e é inevitável tentar compreender o que ele está pensando.
O diretor Steven Knight (de Locke), que também roteiriza o longa, não tem dificuldade no que se diz respeito em criar um ambiente imersivo. Calmaria prende a atenção mesmo que o roteiro teime em parecer absurdo, pois tudo acaba sendo explicado - seja por diálogos ou simplesmente pelo o que as imagens indicam. A complexidade da aventura de Baker Dill, no entanto, perde um pouco o ritmo por conta do mistério travar um pouco a condução da narrativa, como se fosse um looping (por mais que seja claro que esta abordagem é proposital). Felizmente, a atuação de McCounaghey é o principal motivo da trama se manter firme tanto na terra como no mar.
O mesmo não pode se dizer de Karen, personagem de Anne Hathaway. Por mais que possua uma presença forte em tela e forme uma boa dupla com McCounaghey, a atriz dá uma potência muito elevada para sua personagem e, por muitas vezes, sua atuação soa artificial demais. É claro que a postura faz sentido quando adentramos todas as camadas do longa, mas isso acontece de fato somente próximo ao desfecho.
Calmaria começa como uma história de um pescador que sonha em capturar um peixe grande demais para seu próprio barco e acaba se transformando num filme cujas diversas mensagens se confundem com tantas mudanças de direcionamento. Como no mar aberto, há infinitas possibilidades de destino, e o filme concentra-se na mais fantasiosa possível para falar sobre violência doméstica, luto e sofrimento interno. O que no início poderia parecer sem pé nem cabeça acaba por ser algo coeso com todo o microuniverso que o diretor criou, mesmo que a última cena seja tão metafórica que pode representar diversos fins.