Guerra santa
por Bruno CarmeloJacques (Vincent Lindon) é um famoso repórter de guerra, cujo trabalho deixou traumas tanto físicos (os danos na audição) quanto psicológicos (a morte de colegas). Acostumado ao cenário do Oriente Médio, ele se surpreende quando é convocado por um bispo do Vaticano para investigar uma suposta aparição da Virgem Maria a uma adolescente no sul da França. O que Jacques, um homem pouco religioso, poderia contribuir ao caso? Logo, ele descobre uma afinidade maior do que imaginava. Diante dele trava-se uma extensa guerra de versões a respeito da veracidade do fenômeno.
O diretor e roteirista Xavier Giannoli consegue driblar sabiamente os clichês associados tanto ao obscurantismo religioso e quanto ao pragmatismo científico. Os discursos conflitantes são proferidos por membros da igreja, alguns interessados em preservar a versão da jovem Anna (Galatea Bellugi), outros preocupados em validar uma possível fraude e, deste modo, diminuir o prestígio da igreja. Dentro da comissão encaminhada de analisar o caso, encontra-se uma psicanalista que acredita na versão da garota, e um padre que duvida da história. Cena após cena, debate-se a importância que a aparição traria ao turismo da cidade e à mídia, as influências futuras na vida da garota – para o bem e para o mal -, a interferência da ciência na fé, a impossibilidade de determinar a veracidade exata de um caso sem provas.
“Então é você que decide se isso aconteceu mesmo?”, pergunta, de modo tão honesto quanto ingênuo, uma mulher entrevistada por Jacques. O protagonista permanece em silêncio, diante da enorme responsabilidade de construir uma versão oficial da história, algo que terá grave consequência a todos os envolvidos. E se Jacques estiver errado? Durante metade da narrativa, o espectador permanece no escuro, tão ignorante sobre a verdade quanto o próprio repórter. Giannoli constrói um suspense eficaz, sem saídas fáceis, e munido de um senso estético apuradíssimo, capaz de imprimir dinamismo e grande beleza a banais discussões ao redor de uma mesa. Os enquadramentos comparam os investigadores aos membros da Santa Ceia, enquanto a luz brinca com a aparência de santidade e com o teor obscuro da própria inquirição.
A produção, impecável, presta atenção a cada detalhe dos figurinos, dos cenários, das locações, dos inúmeros figurantes. Uma manifestação íntima e secreta é transformada num espetáculo policial, jurídico e religioso. Cada um acredita naquilo que deseja acreditar, enquanto a própria Anna é transformada em ré deste curioso processo. Assim como Marguerite, filme anterior do cineasta, A Aparição também coloca uma mulher no centro da trama, sendo questionada por homens sobre o seu valor, sua visão do mundo, o seu papel na história. Elas são ícones ou embustes? Giannoli é fascinado por procedimentos e validações, encontrando neste caso um terreno fértil para multiplicar as cenas de interrogatórios, análise de documentos, reuniões secretas.
A sucessão de averiguações se sustenta com energia graças à ambiguidade dos fatos e à atuação notável do elenco. Lindon é sempre uma escolha ideal para personagens silenciosos devido à capacidade impressionante de transmitir grande variação de sentimentos pelo olhar e pela postura corporal. Patrick d’Assumçao e Bruno Georis, interpretando de dois religiosos com visões opostas, também encarnam bem esta guerra cada vez mais opressora e violenta. A jovem Galatea Bellugi, imutável em seu ar de pureza, possui menos recursos dramáticos de que os colegas de elenco, mas não compromete o resultado. Afinal, a sua personagem é constituída sobretudo pelo que o mundo faz dela: assim como a Marguerite do filme homônimo, Anna torna-se fruto das circunstâncias.
Na segunda metade, a estrutura narrativa se modifica através de informações assimétricas: ora Jacques sabe de algo que o espectador desconhece, ora o espectador presencia segredos sobre o passado de Anna a que Jacques não tem acesso. Neste instante, o filme envereda por um suspense convencional, mais preocupado em fornecer uma sucessão de reviravoltas do que analisar as implicações morais e éticas das mesmas. Quando o final sugere a vontade de criar uma discussão aberta, em que cada espectador pode interpretar as evidências como quiser, os instantes finais retiram a ambiguidade para apontar uma revelação inesperada, uma verdade única.
A conclusão retira parte da potência de A Aparição. A longa narrativa, de quase 2h30, busca condensar vontades contrárias, estilos diferentes, que talvez se revelem pouco compatíveis. É possível imaginar que o roteiro tenha passado por várias versões, e a montagem deve ter encontrado dificuldades para fornecer um ritmo tão preciso a cada nova etapa deste jogo. Felizmente, Giannoli brinda o espectador com ótimas composições imagéticas e atuações complexas, que compensam a frustração no final. As particularidades do suspense e da discussão filosófica sobre a fé nem sempre se encontram de maneira satisfatória, porém apresentam elementos suficientes para agradar aos fãs de ambos os mundos.