A cidade dos marginais
por Bruno CarmeloA primeira cena deste filme é espetacular. A câmera se cola ao rosto de Nick (o diretor Ben Safdie) enquanto um psicólogo lhe faz perguntas. O rapaz demonstra algum tipo de deficiência mental, além de dificuldades na fala. Ele fica ao mesmo tempo triste e nervoso com o questionamento, e a câmera não se afasta quando as lágrimas começam a cair. Logo entra na sala Connie (Robert Pattinson), gritando, e arrasta o irmão para fora daquele lugar. Bom Comportamento adota essa dinâmica da primeira à última cena: a câmera nervosa se cola aos personagens, correndo de um lugar ao outro.
Esta história poderia ser descrita como um drama sobre a sobrevivência dos marginais na cidade grande. Connie não precisava levar o irmão deficiente ao assalto, mas o faz por considerá-lo como parte integrante de sua vida. Um não pretende ficar sem o outro. O roubo fracassado que dá origem aos problemas da dupla se revela uma mostra de confiança e companheirismo. No entanto, quando Nick é preso, Connie embarca em uma noite infernal, crime após crime, improviso após improviso, na intenção de salvar a própria pele e liberar o irmão deficiente da cadeia.
A direção de Ben Safdie e Joshua Safdie adota um ritmo acelerado, claustrofóbico. Com música eletrônica pulsante, enquadramentos próximos seguindo os personagens e sons realistas - uma pessoa falando por cima do outra, mal se escutando em meio aos ruídos da cidade -, a dupla opta por uma imagem suja, em tom de urgência. O teor absurdo das ações traz um pouco de humor ao conjunto, sublinhando as dificuldades cotidianas enfrentadas pelos marginais do filme: além dos irmãos assaltantes, temos o pequeno traficante (Buddy Duress), a namorada desconectada da realidade (Jennifer Jason Leigh), o segurança imigrante (Barkhad Abdi), a adolescente sem perspectivas de futuro (Taliah Webster).
Essas figuras desajustadas são tratadas com evidente carinho pelos cineastas, que criam momentos tão belos quanto furtivos entre eles. Em sua filmografia, os Safdie sempre se sentiram confortáveis ao lado dos rejeitadas pelo sistema. É impressionante como conseguem trazer astros renomados como Robert Pattinson e Jennifer Jason Leigh para este ambiente de modo orgânico, em ótimas atuações, somando-se ao conjunto verossímil de atores não experientes. Ben Safdie, como ator, também impressiona em composição potente e contida.
O título ressalta a ironia: Bom Comportamento, em português, e Good Time, no original, são termos que transformam o calvário dos irmãos numa noite rotineira. Este é o mérito curioso do filme: registrar um momento excepcional - o roubo, a prisão, a fuga - com o despojamento de uma ação banal. Os Safdie continuam ótimos diretores amorais, ou seja, não contrários à moral vigente, mas sem julgamento moral algum. Seus personagens são pura exterioridade, ação, impulso. São sobreviventes.